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Poeta, cantô da rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que é sua, Que eu canto o sertão que é meu. (...)
Você teve inducação, Aprendeu munta ciença, Mas das coisa do sertão Não tem boa esperiença. Nunca fez uma paioça, Nunca trabaiou na roça, Não pode conhecê bem. Pois nesta penosa vida, Só quem provou da comida Sabe o gosto que ela tem. (...)
Você é munto ditoso, Sabe lê, sabe escrevê, Pois vá cantando o seu gozo, Que eu canto meu padecê. Inquanto a felicidade Você canta na cidade, Cá no sertão eu infrento A fome, a dô e a misera. Pra sê poeta divera, Precida tê sofrimento. (...)
Só canta o sertão dereito, Com tudo quanto ele tem, Quem sempre correu estreito, Sem proteção de ninguém, Coberto de precisão Suportanto a privação Com paciença de Jó, Puxando o cabo da inxada, No quebrada e na chapada, Moiadinho de suó. (...)
In: ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: filosofia de um trovador nordestino. Apres. Francisco Salatiel de Alencar. Petrópolis: Vozes, 1978. |